COMPARTILHAR

Vídeo de câmera coberta em suposta seção eleitoral não comprova fraude

Apesar de o vídeo levantar dúvidas sobre se há manipulação por IA, ainda que seja real, o procedimento é indicado no Manual do Mesário para proteger o sigilo do voto

Publicado em 04/11/2026 17:06 - Atualizado em 04/11/2026 17:19
Vídeo de câmera coberta em suposta seção eleitoral não comprova fraude

Circula nas redes sociais um vídeo em que um homem de camiseta vermelha parece cobrir uma câmera de segurança em um local apresentado como seção eleitoral. Publicações afirmam que o homem seria um mesário e que teria agido para ocultar uma fraude na eleição. A gravação não comprova a alegação, que é enganosa.

A análise do material, realizada pela Agência Lupa, parceira do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação no âmbito da Justiça Eleitoral, identificou características que levantam suspeitas de manipulação por inteligência artificial (IA). Contudo, a baixa qualidade da gravação impede uma conclusão definitiva.

Entretanto, ainda que sejam reais, as imagens não comprovam irregularidades. No Manual do Mesário, a Justiça Eleitoral indica que as lentes das câmeras nas seções sejam bloqueadas para proteger o sigilo do voto. 

O que é fato?

  • O Manual do Mesário das Eleições 2026 trata dos procedimentos de organização, inspeção e fiscalização da seção eleitoral. Há a indicação de que, antes da votação, caso haja câmeras na sala, elas tenham suas lentes bloqueadas para proteger o sigilo do voto. Confira o Manual do Mesário.

  • Uma câmera bloqueada na seção eleitoral não interfere na votação. Somente eleitoras e eleitores cadastrados naquela seção podem votar ali. A urna é liberada após a identificação do eleitor, feita preferencialmente por biometria, ou, quando necessário, pela data de nascimento e assinatura do caderno de votação. O comparecimento fica registrado no sistema.

  • A Mesa Receptora de Votos (MRV) é composta por quatro pessoas, que exercem as funções de: presidente, 1º mesário, 2º mesário e secretário. Uma seção não funciona somente com uma pessoa. Qualquer irregularidade encontrada pode ser informada ao juiz eleitoral.

  • As eleições brasileiras contam com diversos mecanismos de fiscalização e acompanhamento pela sociedade, incluindo entidades fiscalizadoras, como partidos políticos e Ministério Público, além de observadores nacionais e internacionais.

  • Não é possível alterar um resultado de uma eleição. A urna eletrônica não possui conexão com internet, Wi-Fi, Bluetooth ou cabo de rede. Após o encerramento da votação, a urna gera o Boletim de Urna (BU), que registra os votos daquela seção. Esse documento é entregue aos fiscais de partidos e fica afixado na porta da seção eleitoral, para conferência pública.

  • Se alguém tentar inserir na urna eletrônica um programa não autorizado por meio de um pendrive ou outro dispositivo, o sistema de segurança do equipamento bloqueia a execução e ela desliga. Isso ocorre porque o aparelho verifica a autenticidade dos arquivos por meio de assinaturas digitais e mecanismos de integridade. Como os programas oficiais são previamente inspecionados, assinados digitalmente e lacrados, um software estranho ou adulterado não é reconhecido como legítimo e sua execução é bloqueada. Ou seja, ainda que a pessoa com má intenção tivesse êxito, a urna não funcionaria e ela seria substituída por outra. Além disso, qualquer alteração nos arquivos pode ser identificada nas verificações técnicas.

  • Os resultados são públicos e podem ser conferidos. Uma via do BU é afixada em local visível na seção eleitoral, e os dados também são disponibilizados no portal do TSE. Eles ficam disponíveis na página e no aplicativo Resultados. Quando o TSE disponibiliza o BU na internet, ele já está público em cada seção. Assim, qualquer pessoa pode comparar o documento impresso com o resultado divulgado pela Justiça Eleitoral.

  • Os arquivos que são transmitidos para o TSE passam por verificações de autenticidade e integridade antes de serem processados na totalização. Eles são assinados digitalmente e protegidos por criptografia. O sistema de totalização rejeita arquivos que não atendam aos critérios de validação.

  • A análise técnica do vídeo divulgado não foi conclusiva. Devido à baixa resolução da gravação, não foi possível determinar com segurança se as imagens são originais ou se passaram por algum tipo de manipulação. Foram identificadas, entretanto, características que levantam questionamentos sobre a integridade do material. 

Características que levantam suspeitas sobre a autenticidade do vídeo:

  • Mudança de nitidez: no primeiro quadro, a região superior esquerda da imagem aparece borrada, enquanto, no último, está mais nítida. A alteração pode decorrer de manipulação, mas também pode ser resultado da limpeza da câmera ou de uma mudança automática de foco.

  • Perspectiva das cadeiras e da mesa: as pernas das cadeiras na fila à esquerda parecem apresentar uma perspectiva pouco natural. Também há dificuldade para identificar todas as pernas da mesa onde a urna está apoiada. Ao longo de todo o vídeo parecem faltar pernas na mesa onde a urna está colocada.

  • Contorno do ar-condicionado: a silhueta do aparelho parece permanecer visível mesmo depois que a folha ou o pano é colocado diante da câmera.

  • O computador onde está rodando a filmagem e a gravação: o computador onde está rodando a filmagem junto com a gravação que assistimos apresenta um foco muito ruim e de baixa qualidade. Considerando os métodos de gravação atuais, isso não deveria ocorrer. No vídeo analisado, ocorre sempre uma troca de foco constante. É preciso considerar a qualidade de tudo, gravação e filmagem da câmera, mas essa alteração de baixa qualidade chama atenção.

  • Informações da câmera de segurança: as câmeras de segurança usualmente apresentam informações na tela, como o horário, número/nome da câmera, latência, entre outros. No vídeo, em determinado momento, é possível vermos escrito “CAM 1” no canto inferior esquerdo. Porém, essa é a única marcação clara ao longo do vídeo. O horário de gravação e a outra informação do canto superior esquerdo parecem ser inconsistentes. O horário parece não avançar, ficando estático. Em certo instante, a data parece mostrar dia 24 de algum mês (provavelmente outubro). Além disso, a marcação no canto superior esquerdo parece mudar de formato ao longo do vídeo, alternando entre caracteres semelhantes a “6ps”, “Bps” ou “8ps”.

  • Identificação visual da urna: aqui está um dos sinais mais questionáveis. Em determinado momento, a marca da Justiça Eleitoral e os textos que aparecem na proteção da urna desaparecem, mesmo sem estar com algum objeto que os esteja cobrindo, o que pode indicar suposta falha na manipulação.

Conteúdo analisado

Vídeos publicados nas redes sociais mostram um homem colocando um objeto que aparenta ser uma folha de papel ou um pano sobre uma câmera de segurança instalada em uma seção eleitoral. A gravação é compartilhada com relatos de suspeita sobre a segurança do processo de votação, sugerindo que a cobertura da câmera poderia estar relacionada a uma tentativa de ocultar irregularidades.

Por que é boato?

As informações que acompanham o vídeo tentam mostrar que houve fraude nas Eleições de 2026, o que é completamente falso. O vídeo não comprova fraude eleitoral. O Manual do Mesário das Eleições 2026 orienta que, antes da votação, as lentes de câmeras instaladas na sala sejam bloqueadas para proteger o sigilo do voto.

Além disso, a cobertura de uma câmera não permite concluir que houve fraude na votação. A urna só é liberada após a identificação de eleitor cadastrado naquela seção.

A votação é conduzida por uma Mesa Receptora composta por quatro pessoas, e o processo conta com a fiscalização de partidos políticos, do Ministério Público e de outras entidades, além do acompanhamento de observadores nacionais e internacionais.

As urnas não são conectadas à internet e geram um BU ao final da votação, com os resultados da seção. O documento é entregue aos fiscais dos partidos, afixado em local visível e disponibilizado pelo TSE, permitindo a conferência pública dos votos. Os arquivos transmitidos também passam por verificações de autenticidade e integridade.

Por fim, a análise técnica do vídeo não foi conclusiva: a baixa resolução impediu determinar se as imagens são originais ou manipuladas. Entretanto, um dos pontos mais questionáveis é quando a marca da Justiça Eleitoral, no papelão que protege a cabine de votação, some em um dos quadros. 

A divulgação de conteúdos enganosos pode gerar desconfiança no processo eleitoral, colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas e disseminar suspeitas infundadas de manipulação dos resultados. Em 30 anos utilizando o sistema eletrônico de votação, auditado pela sociedade, nunca houve nenhuma evidência de fraude eleitoral.