É falso que urnas “roubam votos” quanto mais tempo permanecem abertas
Publicação usa horários de encerramento das seções para sugerir fraude; gráfico não demonstra alteração de votos
Uma publicação nas redes sociais apresenta um gráfico e uma tabela para afirmar que urnas eletrônicas retirariam votos de uma candidatura e favoreceriam outra com o passar do tempo.
A alegação é falsa. O material agrupa equipamentos pelo horário de encerramento da votação, mas esse dado não demonstra quando cada voto foi registrado nem comprova alteração das escolhas do eleitorado.
Informações da publicação, como o número de urnas/seções eleitorais (497.897) também estão erradas. Nas Eleições 2026, foram 499.248 seções eleitorais, sendo que 41 delas, localizadas em cidades do exterior, não foram instaladas.
No 2º turno do pleito, o eleitorado do pleito votou em 499.207 seções eleitorais. Os dados apresentados no gráfico também não batem com o total de urnas que permaneceram abertas após as 17h (497.333).
O que é fato?
- A urna eletrônica não é programada para transferir votos entre candidaturas. Seu funcionamento é submetido a mecanismos de segurança, auditoria e fiscalização antes, durante e depois da votação; e
- No 2º turno das Eleições 2026, foram registrados 34.393 votos após as 17h em território nacional, mesmo com a prorrogação determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Esse quantitativo é insuficiente para modificar o resultado presidencial, cuja diferença entre os candidatos foi de 4.430.191 votos.
Conteúdo analisado
Uma publicação no X apresenta um gráfico e uma tabela que supostamente distribuem 497.897 urnas do segundo turno de 2026 em dez grupos, ordenados pelo horário de encerramento da votação. O material aponta aumento da vantagem percentual do candidato vencedor sobre o adversário entre os grupos de urnas encerradas mais tarde.
A postagem atribui essa diferença a uma suposta programação dos equipamentos para “roubar votos” progressivamente e afirma que, quanto mais tempo as urnas permanecessem abertas, maior seria a quantidade de votos desviados.
Por que é boato?
O horário de encerramento não indica quando os votos foram registrados. Além de inventar dados, como o total de seções eleitorais, a comparação apresentada também reúne um suposto resultado de cada urna, incluindo os votos recebidos durante todo o dia. Uma seção encerrada às 17h05, por exemplo, contabiliza também as escolhas das pessoas que votaram pela manhã e ao longo da tarde.
Assim, os votos das urnas encerradas mais tarde não podem ser tratados como votos registrados apenas depois das 17h. Tampouco a diferença de desempenho das candidaturas entre esses grupos comprova que os equipamentos tenham alterado votos.
O gráfico não demonstra o mecanismo de fraude alegado nem apresenta uma comparação entre escolhas digitadas e registros supostamente modificados.
O levantamento do TSE identificou 34.393 votos registrados em 497.333 seções eleitorais que permaneciam abertas após as 17h no 2º turno, em todo o país. A diferença final entre as candidaturas à Presidência foi de mais de 4,4 milhões de votos.
Portanto, mesmo considerando a prorrogação da votação determinada pelo STF, o quantitativo de votos registrados depois desse horário não seria suficiente para mudar o resultado da disputa.
Documentos permitem conferir a votação
Antes do início da votação, a urna imprime a zerésima, documento que demonstra a inexistência de votos registrados no equipamento.
No encerramento, é emitido o Boletim de Urna (BU), com os totais de votos registrados naquela seção. Cópias são disponibilizadas à fiscalização, e uma via é afixada na entrada da seção eleitoral para consulta pública.
Qualquer pessoa pode comparar os dados do BU impresso com os resultados da mesma seção publicados pelo TSE na internet. Essa conferência permite verificar se os números divulgados correspondem aos apurados pela urna.
O sistema responsável pela totalização — a soma dos resultados das seções — também emite sua zerésima, em cerimônia pública realizada no TSE em cada turno.
Urnas executam somente programas oficiais
A urna verifica as assinaturas digitais dos programas durante a inicialização. Se houver tentativa de executar um software não autorizado ou adulterado, os mecanismos de segurança bloqueiam o funcionamento do equipamento.
Além das assinaturas, os resumos digitais, conhecidos como hashes, permitem comparar os arquivos instalados nas urnas com aqueles assinados e lacrados no TSE. Uma modificação no arquivo produz um resumo diferente, permitindo identificar a alteração.
Códigos-fonte passaram por inspeção
Os códigos-fonte dos sistemas utilizados nas Eleições 2026 ficaram disponíveis para inspeção entre 2 de outubro de 2025 e 4 de setembro de 2026. Nesse período, foram examinados por participantes do Teste Público da Urna e por entidades fiscalizadoras.
Oito instituições realizaram inspeções: Partido Verde e União Brasil, Senado Federal, Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Sociedade Brasileira de Computação (SBC), Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), Procuradoria-Geral da República (PGR) e Controladoria-Geral da União (CGU).
Na Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração, os códigos passam pela compilação, que gera os programas eleitorais. Esses programas são assinados digitalmente, lacrados e distribuídos aos Tribunais Regionais Eleitorais para a preparação das urnas.
A cerimônia encerrada em 4 de setembro também contou com a participação de representantes do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), da Polícia Federal, do CNMP, do Conselho Federal da OAB e da Defensoria Pública da União. O Confea e a CNMP também inspecionaram os códigos-fonte já compilados e lacrados.
Testes no dia da eleição
O Teste de Integridade verifica se os votos digitados são registrados e contabilizados corretamente. Urnas escolhidas ou sorteadas para auditoria em todos os Estados do país recebem votos previamente registrados em cédulas de papel. Ao final, os totais das cédulas são comparados com o boletim emitido pelo equipamento. O procedimento é filmado e acompanhado por auditoria externa.
Também existe o Teste de Integridade com Biometria, realizado nos locais de votação com a participação voluntária de eleitoras e eleitores. A identificação biométrica é utilizada para habilitar a urna submetida ao teste.
Já o Teste de Autenticidade, realizado antes do início da votação nas seções selecionadas, confere se os sistemas instalados correspondem aos assinados e lacrados no TSE. O procedimento inclui a conferência da identificação da urna e a verificação das assinaturas e dos resumos digitais dos programas eleitorais.
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