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Eleições 2026: é falso que 124 mil urnas tenham registrado votos apenas para Lula no 2º turno

Dados oficiais do TSE desmentem publicação que também apresenta informações incorretas sobre resultados de seções eleitorais no DF e no RJ

Publicado em 29/10/2026 19:15 - Atualizado em 29/10/2026 19:29
Eleições 2026: é falso que 124 mil urnas tenham registrado votos apenas para Lula no 2º turno

No vídeo, um deputado federal eleito pelo Partido Liberal (PL) no Rio Grande do Sul afirma que 124 mil urnas eletrônicas (em outro trecho, ele fala em 124 urnas) teriam registrado cerca de 15 mil votos para Luiz Inácio Lula da Silva e nenhum voto para Flávio Bolsonaro, então candidatos à Presidência da República. A gravação também levanta suspeitas sobre supostos resultados idênticos em seções eleitorais do Distrito Federal e do Rio de Janeiro.

Isso é falso. As afirmações não correspondem aos dados oficiais da Justiça Eleitoral. Levantamento realizado pela área técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base nos resultados da votação por seção eleitoral do Portal de Dados Abertos, demonstra que os números apresentados na publicação estão incorretos.

O que é fato?

  • Apenas 110 das 499.205 seções eleitorais com votos registrados no 2º turno tiveram todos os votos válidos para presidente destinados a um único candidato, o que representa cerca de 0,02% do total.

  • 106 seções registraram votos válidos exclusivamente para Lula, enquanto quatro registraram votos válidos exclusivamente para Flávio Bolsonaro.

  • Nas 106 seções, Lula recebeu 14.860 votos, enquanto 362 eleitores votaram em branco ou anularam o voto.

  • Nas quatro seções, Flávio Bolsonaro recebeu 296 votos, além de seis votos brancos ou nulos.

  • As dez primeiras seções da 1ª Zona Eleitoral de Brasília tiveram votações diferentes entre si, ao contrário do que afirma a publicação.

  • No Rio de Janeiro, as 37.675 seções analisadas apresentaram 16.090 combinações diferentes de votos para os dois candidatos.

Conteúdo analisado

A publicação utiliza números atribuídos aos resultados da votação para presidente da República no 2º turno das Eleições 2026 para levantar suspeitas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas e a apuração dos votos. As alegações envolvem a quantidade de seções em que apenas um candidato recebeu votos válidos e supostas coincidências nos resultados registrados no Distrito Federal e no Rio de Janeiro.

Por que é boato?

Nas 499.205 seções eleitorais com votos registrados no 2º turno, apenas 110 tiveram todos os votos válidos para presidente destinados a um único candidato, o que representa cerca de 0,02% do total. Cada seção corresponde a uma urna eletrônica. Desse conjunto, 106 registraram votos válidos exclusivamente para Lula e quatro registraram votos válidos exclusivamente para Flávio Bolsonaro.

Nas 106 seções em que Lula foi o único candidato a receber votos válidos, compareceram, ao todo, 15.222 eleitores. Desse total, 14.860 votaram no candidato, enquanto 362 votaram em branco ou anularam o voto. O total de cerca de 15 mil votos citado no vídeo, portanto, aproxima-se do número real. O erro está na quantidade de urnas (106, e não 124 mil) e na sugestão de que esse resultado seria impossível ou suspeito.

Já nas quatro seções em que Flávio Bolsonaro recebeu todos os votos válidos, compareceram 302 eleitores. Foram 296 votos para o candidato e seis votos brancos ou nulos.

É importante esclarecer que a quantidade de votos recebidos por cada candidato pode variar de uma seção para outra. O fato de todos os votos válidos de uma seção terem sido destinados ao mesmo candidato não representa uma irregularidade.

Onde ficam as seções que registraram votos para apenas um candidato?

As seções em que Lula recebeu todos os votos válidos para presidente estão distribuídas por 18 estados brasileiros. A maior concentração ocorreu no Amazonas, com 30 seções, seguido pelo Maranhão, com 20, e pelo Pará, com 16.

Essas seções não são necessariamente pequenas. Segundo levantamento da área técnica do TSE, a mediana de comparecimento foi de 125 eleitores nas 110 seções. Nas 106 em que houve registro de votação exclusiva para Lula, a mediana de comparecimento foi de 128. No Amazonas, algumas das seções com maior votação estão localizadas nos municípios de Tabatinga, Atalaia do Norte, Santo Antônio do Içá e São Paulo de Olivença, na região do Alto Solimões, com até 354 votos para Lula em uma única seção, em Tabatinga.

Já as quatro seções em que Flávio Bolsonaro recebeu todos os votos válidos estão localizadas em Arroio do Padre (RS), Cândido Godói (RS), Jacareacanga (PA) e Chaves (PA). Nelas, o candidato recebeu, respectivamente, 116, 82, 50 e 48 votos.

E os resultados das seções de Brasília?

O vídeo também afirma que as dez primeiras seções eleitorais de Brasília teriam registrado resultados idênticos, com aproximadamente 57 mil votos para Lula e 28 para Flávio Bolsonaro. A informação não procede. Dez seções reúnem cerca de 2,6 mil eleitores aptos, o que torna impossível registrar 57 mil votos. Levantamento da área técnica do TSE mostra que as dez primeiras seções da 1ª Zona Eleitoral de Brasília tiveram votações diferentes entre si.

Na seção 1, por exemplo, Lula recebeu 116 votos e Flávio Bolsonaro 131. Na seção 2, foram 122 votos para Lula e 111 para Flávio. Já na seção 3, os candidatos receberam 107 e 133 votos, respectivamente. Somadas, as dez primeiras seções da 1ª Zona deram 1.004 votos a Lula e 1.048 a Flávio Bolsonaro. Os resultados não foram idênticos, ao contrário do que afirma a publicação.

No Distrito Federal, Flávio Bolsonaro venceu a disputa presidencial, com 979.542 votos, contra 825.224 de Lula.

O vídeo diz ainda que, na disputa para governador do DF, os resultados seriam “todos diferentes”. Por se tratar de outro cargo, com outros candidatos, é natural que os números não coincidam com os de presidente, e, como mostrado acima, os resultados para presidente também variam de uma seção para outra.

E no Rio de Janeiro?

A alegação de que diversas seções eleitorais do Rio de Janeiro teriam registrado exatamente os mesmos resultados também não encontra respaldo no levantamento da área técnica do TSE.

Nas primeiras seções da 4ª Zona Eleitoral, por exemplo, foram registradas diferentes combinações de votos para Lula e Flávio Bolsonaro: 173 a 83, 154 a 84, 167 a 80 e 199 a 88.

Em todo o estado, as 37.675 seções analisadas apresentaram 16.090 combinações diferentes de votos para os dois candidatos.

Embora algumas seções possam apresentar a mesma quantidade de votos para determinados candidatos, isso não significa que seus Boletins de Urna (BUs) sejam idênticos. O levantamento identificou pares de seções vizinhas com votação igual para os dois concorrentes, mas com quantidades diferentes de votos brancos e nulos.

Portanto, a existência de resultados numericamente semelhantes não comprova qualquer irregularidade.

Entenda a diferença entre zona e seção eleitoral

A zona eleitoral é uma divisão geográfica da Justiça Eleitoral que reúne diversas seções eleitorais, distribuídas em locais de votação, que podem ser uma escola, uma universidade ou um ginásio, por exemplo.

A seção eleitoral é a sala onde um grupo de eleitores vota, utilizando uma urna eletrônica, e os resultados de uma seção não representam a votação de toda a zona eleitoral, do município ou do estado.

Como conferir os resultados?

Essa situação não é inédita. Os resultados das Eleições 2026 são públicos e podem ser consultados por qualquer cidadão.

Ao contrário do que afirma o vídeo, não é proibido analisar ou questionar resultados eleitorais. Os dados de todas as seções são públicos justamente para que qualquer pessoa possa fazer essa verificação. O que a legislação eleitoral veda é a divulgação de fatos sabidamente inverídicos ou gravemente descontextualizados sobre o processo eleitoral.

Por meio da página Resultados da Justiça Eleitoral, é possível acessar os Boletins de Urna, documentos que registram a quantidade de votos recebidos por cada candidato, além dos votos brancos e nulos, em cada seção eleitoral.

Os arquivos também estão disponíveis no Portal de Dados Abertos do TSE, o que permite que cidadãos, partidos políticos, pesquisadores e entidades fiscalizadoras confiram os resultados da votação.

A consulta aos dados oficiais é fundamental para verificar a veracidade de informações compartilhadas sobre o processo eleitoral.